O futuro não se constrói com promessas, mas com quem ousa manter a indignação viva. A criação do Prêmio Chico Vive é mais do que uma homenagem: é uma tentativa de escrever hoje a manchete que leremos daqui a vinte anos.
Se em 2045 os jornais noticiarem que uma geração de jovens brasileiros salvou os biomas, reconectou cidades à natureza e fez da floresta um projeto nacional, esse prêmio terá sido um marco inaugural. Ele terá dado nome, voz e rede a lideranças que, em vez de aceitar a destruição como destino, reinventaram a relação do país com a terra. Essa projeção é plausível porque os critérios do prêmio — continuidade histórica, coletividade, mobilização, paixão e inovação — são a cartografia de um futuro sustentável.
“No começo pensei que lutava para salvar seringueiras. Depois pensei que lutava para salvar a floresta amazônica. Agora percebo que estou lutando pela humanidade.”
Chico Mendes
Mas também é possível que, em 2045, o prêmio seja lembrado como gesto isolado, belo mas insuficiente, incapaz de frear a expansão de monoculturas, o avanço da mineração e o fogo das queimadas. Nesse cenário, os jovens de hoje serão citados como heróis solitários, tragados por um país que preferiu o lucro imediato ao pacto com a vida. A ironia cruel seria celebrar o legado de Chico Mendes enquanto se permitia a repetição das circunstâncias que o mataram.

A antítese revela a encruzilhada: não basta premiar, é preciso proteger; não basta reconhecer, é preciso mudar a lógica que transforma lideranças em mártires. A juventude convocada por este prêmio pode ser o motor da esperança, mas sem respaldo político, econômico e institucional, será apenas combustível para narrativas heroicas que o país coleciona com melancolia.
A síntese está na coragem de transformar memória em ação. Se o Brasil souber aprender com Chico Mendes e com os que hoje se levantam em seu nome, a manchete de 2045 poderá ser lida com orgulho: “A geração que salvou os biomas e devolveu humanidade ao Brasil começou aqui.”

